Iracema Plaza Hotel

Iracema Plaza Hotel

Iracema Plaza Hotel

1. Não gosto da arquitetura nova
Porque a arquitetura nova não faz casas velhas
Não gosto das casas novas
Porque casas novas não têm fantasmas
E, quando digo fantasmas, não quero dizer essas
Assombrações vulgares
Que andam por aí…
É não-sei-quê de mais sutil
Nessas velhas, velhas casas,
Como, em nós, a presença invisível da alma… Tu nem sabes
A pena que me dão as crianças de hoje!
Vivem desencantadas como uns órfãos:
As suas casas não têm porões nem sótãos,
São umas pobres casas sem mistério.
Como pode nelas vir morar o sonho?
O sonho é sempre um hóspede clandestino e é preciso
(Como bem sabíamos)
Ocultá-lo das outras pessoas da casa,
É preciso ocultá-lo dos confessores,
Dos professores,
Até dos Profetas
(Os Profetas estão sempre profetizando outras coisas…)
E as casas novas não têm ao menos aqueles longos,
Intermináveis corredores
Que a Lua vinha às vezes assombrar!
[Mario Quintana, Arquitetura Funcional]

2. O Iracema Plaza Hotel é uma casa velha, com seus fantasmas, suas marcas, sua identidade, suas passagens-secretas, surgidas sem querer, e seus longos e intermináveis corredores. É sempre a melhor escolha para brincar de esconde-esconde, pega-pega, ou simplesmente para aguçar nossa imaginação, criando histórias sobre os moradores, assombrações, bruxas… O edifício tem esse poder.

3. O Iracema Plaza Hotel é a materialização da complexidade e ambiguidade. Nenhuma fachada é igual à outra. Nenhum eixo de simetria pode ser traçado. Nenhum eixo estrutural pode ser imaginado. Nenhum apartamento é igual ao outro. Nenhum pavimento é similar ao outro; nem têm sempre a mesma a altura. Nenhum poço de iluminação sobe como o outro. Nenhum terraço se assemelha ao outro. Nem todo andar tem escada para descer. Nem toda porta é uma porta. Esta é a essência do edifício.

4. As ruínas se tornam sublimes a partir dos estragos, das rachaduras, da vegetação crescente e das cores que o processo de envelhecimento confere aos materiais da construção. A ruína é o testemunho da idade, do envelhecimento e da memória, podendo nela estar expressa a essência do monumento.
[John Ruskin]

5. O Iracema Plaza Hotel é um monumento da cidade de Fortaleza. Carrega consigo um modo de entender, representar e construir a arquitetura, numa época específica e num lugar específico, onde os arquitetos ainda não haviam chegado, e o olhar ainda era inocente. Transparece, sem maquiagens, suas rugas, suas ruínas, um verdadeiro saber.

6. As ruínas são a expressão máxima do edifício em sua condição de monumento. É o lugar em que se revela a íntima relação entre corpo e alma, memória e destino, permanência e dissolução.

7. O caráter acabado do novo, que se exprime da maneira mais simples por uma forma que ainda conserva sua integridade e sua policromia intacta, pode ser apreciado por todo indivíduo, mesmo completamente desprovido de cultura. É por isso que o valor de novidade sempre será o valor artístico do público pouco cultivado.
[Alois Riegl]

8. O novo trasvestido de novidade, ou a novidade imposta sob o discurso do novo, é sinal de uma civilização que já não mais busca a melhoria da condição humana, mas sim a expressão de seu estado superficial. A exacerbação da novidade é a afirmação de uma civilização cega que já não acredita na condição transformadora intrínseca à arquitetura e a toda arte séria.

9. O Iracema Plaza Hotel é o alinhamento entre a pátina, de John Ruskin, e as marcas do tempo à necessidade do novo, de Alois Riegl. O resultado é uma desconcertante sobreposição de épocas, que se transfiguram entre si. O tempo, assim, se esvai. As intervenções são claras e o passado é marcante. Mas o caráter da intervenção faz que um modifique o outro, criando um estado extratemporal. E sem fazer parte nem do presente, nem do passado e muito menos do futuro, o belo reaparece na sua integridade única e particular.

10. O projeto arquitetônico que segue a moda pode até ser o sucesso de hoje, mas com mais certeza será o embaraço de amanhã, e o ridículo de depois de amanhã. Tratar a arquitetura como algo passível de ser consumido termina por tornar a própria disciplina obsoleta, enquanto seus produtos permanecem como monumentos à estupidez humana.
[Edson Mahfuz]

11. O Iracema Plaza Hotel é um exemplar único de arquitetura, de grande identidade e valores históricos e artísticos. Seu aspecto peculiar aguça a imaginação e multiplica suas memórias. O edifício torna-se vários em um só. Isso é arquitetura.

12. A partir do momento em que o edifício se torna público e aberto, o seu interior passa a fazer parte da cidade. Exterior e interior, superfície, volumetria e espaço, passam a se relacionar intimamente com a vida urbana. O que antes era uma relação estritamente de fachada adentra o edifício e faz prolongar sua permanência.

13. Verticalizar o Iracema Plaza Hotel através de um edifício parasita não é solução. Torná-lo uma casca é embalsamá-lo: o próximo passo seria seu enterro, seu compositor seria Richard Wagner.

14. Será dada a alcunha de ‘medonho’ a todo sujeito que atentar publicamente contra o bom senso e o bom gosto artísticos.
[Padaria Espiritual]

15. O Iracema Plaza Hotel tem sua verdade no aspecto atual. Seu aspecto original deixou de existir na iminência do término de sua construção. Não há como restituí-lo. Fazê-lo seria enfatizar uma aparência em detrimento de sua essência, o percurso da vida.

16. O espaço interno do Iracema Plaza Hotel é sua condição existencial: sua ordem caótica, alavancada pela falta de planejamento e rigor construtivo, perceptível na sua aparente simetria, nos seus escalonamentos, nos seus diversos níveis e escadas, nos seus longos e estreitos corredores, nos seus terraços, nos seus inúmeros fossos de iluminação. Sua visualidade externa é decorrência do seu espaço interno.

17. O Iracema Plaza Hotel é exemplo potencial de que relação com a cidade pode ir além da fachada, e pode avançar pelo espaço interno, tornando o edifício um monumento íntegro, no qual nada é secundário e tudo é cidade.

18. Sendo monumento, o Iracema Plaza Hotel é mais importante que seus usos. Não se deve dotar o edifício de um uso específico e sim torná-lo apto a comportar os mais variados usos durante sua existência. Os usos devem adaptar-se ao edifício e não o contrário.

19. O surpreendente é a obesidade de todos os sistemas atuais, essa gravidez diabólica do câncer, que é a de nossos dispositivos de informação, de comunicação, de memória, de armazenamento, de produção e de destruição, tão pletóricos, que têm de antemão a garantia de já não servirem. Não fomos nós que extinguimos o valor de uso, foi o próprio sistema que o liquidou pela superprodução. Tantas coisas são produzidas e acumuladas, que nunca mais terão tempo de servir […]. Tantas mensagens e sinais são produzidos e difundidos, que nunca mais terão tempo de ser lidos. Sorte nossa! Porque a ínfima parte que absorvemos já nos põe em estado de eletrocussão permanente.
[Jean Baudrillard]

20. A intervenção contextual proposta restringe-se a três quadras: a que comporta o Iracema Plaza Hotel e as duas laterais. Apresenta como elementos básicos: a paginação e remodelamento dos passeios e vias, a arborização e a iluminação.

21. Uma torre de circulação vertical é proposta na fachada leste do Iracema Plaza Hotel, de modo a atender as necessidades de segurança e acessibilidade. Um volume transparente, que destaca a composição elementar do edifício. Um sistema estrutural leve, uma montagem rápida e limpa. Placas fotovoltaicas instaladas na cobertura produzirão a energia necessária. Um novo acesso, mais uma fachada principal, como todas as outras.

22. Um estacionamento subterrâneo ao longo da Avenida Beira-mar é proposto. As vagas lindeiras à via são removidas, permitindo a ampliação dos passeios. O necessário rebaixamento do lençol freático fornecerá água suficiente para abastecer o Iracema Plaza Hotel.

23. Este, se disse o pequeno príncipe enquanto prosseguia sua viagem, este será despreciado por todos os outros, pelo rei, pelo vaidoso, pelo bebedor, pelo homem de negócios. No entanto, é o único que não me parece ridículo. É, talvez, porque se ocupa de coisas alheias a si mesmo.
[Antoine de Saint-Exupéry]

24. Na cobertura do Iracema Plaza Hotel, o novo abraça e protege o velho, ao mesmo tempo em que este lhe garante a sabedoria. Os passados permanecem nas suas paredes, nas suas esquinas, nas suas ruínas, e o presente busca o futuro num sonho de já virar passado.

25. O Iracema Plaza Hotel é a possibilidade de situações ideais que chegam perto de serem tocadas, assim como as ditas indesejadas. Restringir-se ao real é impossibilitar o nascimento de uma situação ideal impensável. A cidade acontece através dos muros. O edifício é invadido pelo espaço da rua, pelo contato dos vizinhos, pela passagem daquele estranho que só se vê um vez na vida.

26. Sob o céu nascido após a chuva
escuto um leve deslizar de remos sobre a água,
enquanto penso que a felicidade
não é senão um leve deslizar de remos sobre a água
[Jorge Teillier]

Diálogos de uma Intervenção Contextual

1° nível de diálogo [o edifício e seu entorno]. Do mesmo modo que o valor de um objeto singular muda de acordo com o ambiente em que aparece, a imagem que o edifício transparece é relativa ao seu entorno, àquilo que cria sua atmosfera. Varia de acordo com uma mudança naquele. Aqui atua a força centrípeta do contexto imediato.
2° nível de diálogo [o edifício e seus usos]. Do mesmo modo que o valor de um objeto singular muda de acordo com quem o utiliza, a imagem que o edifício transparece é relativa a seus usuários. Seus usos e funções dependem e são consequência de quem o vivencia, não o contrário. Aqui atua a energia potencial acumulada dos diversos grupos de pessoas.
3° nível de diálogo [interior x exterior do edifício]. Do mesmo modo que o valor de um objeto singular muda de acordo com a qualidade formal e material de seus elementos constituintes, a imagem que o edifício transparece é relativa aos elementos externos e seus materiais. Depende de suas esquadrias, elementos de comunicação por excelência entre interior e exterior, os olhos do edifício. Sua alma se faz presente através do olhar. Aqui atua a força centrífuga da identidade.
4° nível de diálogo [o edifício e a história]. Do mesmo modo que o valor de um objeto singular muda de acordo com os detalhes formais ou operativos que apresenta, a imagem que o edifício transparece é relativa às marcas surgidas e adicionadas a ele ao longo de sua vida. Depende da clarificação de seus traços característicos. Aqui atua o poder da experiência e sabedoria acumuladas.

Critérios Gerais de Restauro

Usos futuros. Não determinar, e sim ordenar os usos futuros. Tornar o edifício apto a receber indeterminadas funções durante sua existência.
Contexto urbano. A intervenção deve ser prioritariamente e ter seu peso no contexto urbano imediato que rodeia o edifício. Uma mudança tal que transforme sua apreensão, tornando o velho, novo; o feio, belo; sem modificá-lo.
Novas intervenções. Somente em casos excepcionais deve-se intervir no edifício. Somente naqueles que se faz urgente enfatizar sua essência e/ou possibilitar novos e indeterminados usos futuros. A qualidade arquitetônica e construtiva deve ser inquestionável.
Tratamento das fachadas. Limpar externa e superficialmente as fachadas, e reaplicar argamassas de revestimento nos locais deteriorados. Aplicar somente líquidos protetores transparentes e de pouco brilho. Não aplicar nova pintura. Manter o aspecto atual do edifício, sua história, suas marcas e cicatrizes.
Esquadrias. Recuperar funcionalmente as esquadrias. Torná-las adequadas às necessidades cotidianas. Quando não houver possibilidades de restauro, criar um novo padrão diferenciado e esteticamente mais simples que o original.
Acréscimos. Manter e respeitar os acréscimos. Somente no caso em que um acréscimo prejudica esteticamente o conjunto edificado, substituí-lo por um elemento compositivo novo e simples, que marque a existência prévia do anterior.
Ruínas. Estabilizar as ruínas e manter sua condição atual. Este deve ser o critério preponderante, em detrimento dos demais.
Vegetação ascendente. Manter a vegetação ascendente. Limitar a expansão das raízes e criar estruturas adjacentes que isolem a alvenaria que nutri a vegetação.
Estrutura. Estabilizar e reforçar a estrutura. Quando necessário, utilizar estrutura suplementar, atual e diferenciada da original.
Espaço interno. Recuperar funcionalmente os elementos originais existentes. Preservar a essência espacial e perceptiva do edifício.

 

Veja aqui as pranchas originais.

 

Via ArchDaily Brasil.

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