Iracema Plaza Hotel na década de 1950

Iracema Plaza Hotel na década de 1950


Jornal O Povo: Para quem você desenvolveu o projeto?

Igor Fracalossi: Desenvolvi o projeto por conta própria. Um auto-encargo. Em 2008, comecei os primeiros estudos históricos e levantamentos de material e informação. Logo, em 2009, iniciei a reconstrução digital do edifício, com objetivo de compreender sua arquitetura e como foi construído. Em 2010, o projeto de intervenção foi apresentado no 19° Congresso Brasileiro de Arquitetos, em Recife. Este ano de 2012, o projeto teve a colaboração do estúdio de arquitetura espanhol Cruxflux. Revemos alguns detalhes do projeto e reescrevemos alguns princípios. É um projeto de longo processo e madurez. Não posso deixar de enfatizar que nasci e fui criado na Praia de Iracema. Assim como ela constitui parte fundamental da minha identidade e da minha família, vejo no edifício do antigo Iracema Plaza Hotel uma das obras que maior dá identidade ao lugar. Ele sempre é visto e se faz presente onde você esteja. Às vezes se esconde, em meio ao sufocamento vertical dos outros edifícios, mas logo volta a aparecer, predominante.

OP: Nesse projeto, a ideia é que os usos se adequem ao edifício, não o contrário. Isso quer dizer que teria usos múltiplos? Quais você imagina?

IF: Isto quer dizer que teria usos indefinidos, do mesmo modo que amanhã uma casa na Praia de Iracema pode se tornar um café, ou uma antiga fábrica, um teatro. Ou o DNOCS, que poderia haver se tornado o aquário, e não, haver sido estupidamente implodido. O primeiro que um edifício perde é o seu uso original. É o que a arquitetura apresenta de mais efêmero e evanescente. Permitir a multiplicidade ilimitada e indefinida, porém ordenada, de usos é dar vitalidade a uma obra. O que de fato supervive de um edifício é a sua forma, é como é visto objetivamente. Um edifício é considerado Arquitetura não porque é um grande centro cultural, mas porque sua forma é consistente. Uma consistência que é tanto estética quanto intelectual. Nos produz prazer e nos faz pensar. Este é o caso do antigo Iracema Plaza Hotel. Por isso é que não penso em que uso, este ou aquele, mas penso nas pessoas que estarão caminhando e vivendo nele e por ele. Uma multiplicidade de pessoas. Umas gostarão dos terraços da cobertura, algo único na cidade; outras preferirão perder-se pelo labirinto de corredores; outras caminharão pelo térreo, porque talvez gostem de um contato mais direto com o exterior. Há que pensar não em o que pôr, mas como será essa vida, como se dará, que verão, que sentirão. Pensar nos usos é pensar em algo de antemão obsoleto.

OP: O projeto de retomar o uso de hotel de luxo, com a possibilidade de construir uma torre mais alta seria viável na sua opinião?

IF: Não vejo nenhum problema com relação ao luxo. Como diria Germán del Sol, arquiteto chileno contemporâneo, há vinhos caríssimos que nunca vamos provar, mas são eles que criam a qualidade do conjunto de vinhos de um lugar, e inclusive aqueles mais baratos, que podemos comprar, repercutirão essa qualidade. Isso acontece também na arquitetura, e em várias dimensões. Por exemplo, quem já entrou no Palácio da Abolição? Ou no próprio Iracema Plaza? A grande maioria das pessoas nunca entrará nesses edifícios, mas seguramente passarão por eles. O luxo por si mesmo não é negativo. Negativo é quando ele se une ao consumo, cuja imagem arquitetônica é a do arranha-céu. O projeto que proponho é uma abertura do edifício à cidade, a torná-lo parte íntegra da cidade, com suas ruas, travessas, calçadas, vilas, largos, escadas, terraços, esquinas… É fazer com que a riqueza do seu interior possa ser contemplada por aquelas pessoas que nunca saberiam dessa existência. A torre, ao contrário, é a supressão dessa riqueza interior. É a criação de uma casca morta, que assim como uma múmia, ao mínimo toque se desfaz. Existem pelo menos quatro projetos anteriores ao meu, de grandes escritórios de Fortaleza, todos propõem o erguimento de uma torre. Tudo que se une ao consumo é desde sempre economicamente viável. A atual sociedade da tecnologia e da informação chegou a um ponto de desenvolvimento que permite que qualquer absurdo seja passível de materialização. O imprescindível é se perguntar se, apesar de que podemos, devemos. Devemos?

Fonte: jornal O Povo.

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